Soacha, próximo a Bogotá, é o local que mais recebe "desplazados" pela violência e confrontos na Colômbia (Foto: Tahiane Stochero/G1)Regiões como Valle del Cauca e Antioquia, na costa do Pacífico, são as que mais expulsaram moradores em 2011, devido principalmente à suposta atuação de milícias paramilitares controladas por cartéis da cocaína e guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que há 40 anos usam táticas terroristas e sequestros para tentar controlar parte do país. Enquanto isso, a região metropolitana de Bogotá, que compreende Soacha, é a que mais recebeu “desplazados” – são 315 mil nos últimos 13 anos.
Izelda gosta de viver em Soacha, onde filhos recebemestudo e trabalham (Foto: Tahiane Stochero/G1)
A Colômbia é o único país onde a Acnur, além de refugiados obrigados a deixar seus países, trabalha também com deslocados internos.
A agência fornece aos deslocados colombianos principalmente proteção, soluções para problemas de infraestrutura e também atua impedindo o recrutamento forçado de menores de idade para grupos armados e o abuso sexual de mulheres e crianças.
"Estou em Soacha há cinco anos, desde que fugi com meus filhos do departamento de Antioquia porque os confrontos entre os militares e os guerrilheiros estavam duros. Todos nós tínhamos medo. Aqui eu me sinto feliz, tenho ajuda, os garotos estudam e trabalham. Precisaria de mais dinheiro do governo, eles só nos ajudaram no início", reclama Izelda Marieta. "Tem violência e bandos criminais aqui também. Mas é só não se misturar com eles, que não tem risco", acrescenta ela.
Nas ruas de Soacha, não há asfalto, saneamento enem há água encanada na região
(Foto: Tahiane Stochero/G1)
Fugitivos de todo o país
Cerca de cinco pessoas chegam diariamente a Soacha vindas de todo o país, alegando risco de vida ou após terem sido ameaçadas por grupos armados ilegais, guerrilheiros, paramilitares ou forças públicas. As condições de vida da população são simples. Não há água encanada e saneamento básico em grande parte da favela. As casas são de papelão ou pedaços de telhas de zinco, que não são levadas pelo vento porque grandes pedras, colocadas no teto, as seguram.
Casa dos Direitos é um local em que a Acnur apoiaa recepção de deslocados, ouvindo suas histórias e
dando a eles informações sobre seus direitos
(Foto: Tahiane Stochero/G1)
“O formulário, com todos os relatos da família, é repassado para o serviço social do governo, que verifica se as informações são verdadeiras para que ele possa solicitar a certidão de ‘desplazado’, que lhe dá direito a várias ações sociais, como saúde, educação e um auxílio financeiro por cerca de 3 meses”, acrescenta ela. O tempo previsto para o governo conceder a certidão de “desplazado” é de 30 dias, mas isso costuma demorar até 3 meses, diz Claudia.
Marta fugiu após paramilitares descobrirem que maridofoi soldado e faz aulas de panificação para conseguir
trabalho (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Ela conta que teve de fugir desesperada com a família da cidade de Tolima após paramilitares descobrirem que seu marido havia sido soldado do Exército colombiano e terem tentado recrutá-lo forçadamente para atuar nas milícias armadas.
“Uma das maiores dificuldades que temos com os deslocados é arranjar emprego, pois a oferta para este tipo de pessoa é complicada e limitada. A maioria dos deslocados são campesinos. Eles não estão acostumados com a construção civil, com trabalhos urbanos, de escritório, e outras atividades. É um grande choque para eles sair do meio da selva, de zonas rurais, e se adaptar à cidade”, explica Olga Arboled, coordenadora da Unidade de Atenção e Orientação à População Desplazada (UAO) de Soacha, escritório que auxilia deslocados a obter documentos e direitos.
“Tivemos um aumento grande de pessoas chegando a Soacha entre 2002 e 2003 e também em 2007. Atualmente, a situação está estável”, diz.
Moradores de Soacha enfeitaram ruas para as festasde fim de ano (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Uma lei colombiana de 2007 considera como deslocado “toda pessoa que foi forçada a migrar dentro do território nacional, abandonando sua localidade de residência ou atividades econômicas habituais porque sua vida, integridade física, segurança ou liberdade estão vulneráveis ou se encontram diretamente ameaçadas em decorrência de qualquer uma das situações: 1) conflito armado interno; 2) distúrbios ou tensões internas; 3) violência generalizada; 4) violações maciças dos direitos humanos; 5) infrações ao direito internacional humanitário; 6) ou outras circunstâncias não elencadas dentre as anteriores que alteram drasticamente a ordem pública".
Segundo o chefe do escritório de proteção da agência, Andres Celis, o número de deslocados internos cresceu no país no início dos anos 2000 devido ao aumento do número de combatentes, à formação de grupos paramilitares ligados ao narcotráfico e ao surgimento de facções criminais. “Antes, só havia a guerrilha (as Farc). Atualmente, o contexto é complexo, há quadrilhas criminosas que agem mediante extorsão para dominar cidades e grupos armados ilegais formados por desmobilizados, paramilitares ou narcotraficantes, como as facções Águias Negras e Rastrojos", explica Celis.
Policiais são levados para Soacha em pequenoscaminhões de carga; grupos armados de
desmobilizados atuam na
região (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Um levantamento realizado pelo UAO aponta que 45% deles foram obrigados a deixarem suas casas supostamente por atuação de grupos de autodefesa ou paramilitares e outros 22% pelas Farc.
Para atender quem chega a Soacha sem parentes ou conhecidos, a Pastoral Social, da Igreja Católica, construiu um albergue, que abriga até 40 pessoas por um período máximo de 15 dias. “Muitas pessoas chegam aqui perdidas, desesperadas, e precisam de um tempo para se adaptar e buscar um lugar para ficar. Aqui garantimos proteção e comida”, diz Susana Garzán, que coordena o local.
Uma das pessoas que buscou abrigou ali foi a desempregada Marta Cecília Beroglia, de 38 anos. “Cheguei a Soacha com três filhos pequenos e sem marido. Não estou trabalhando, porque estou doente, mas quero ficar. Tenho medo de voltar para minha cidade, meus familiares eram perseguidos, matavam as pessoas. Aqui me sinto segura”, desabafa.fonte g1
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